sexta-feira, 29 de abril de 2011

Aula 08 - DS aplicado a Serviços - Otimização do Ciclo de Vida

Serviços podem contribuir para otimizar a necessidade da utilização de recursos materiais para atender uma dada unidade de satisfação (nível 1 e 2 da figura ao lado). A otimização pode ser direcionada para a própria operação de um serviços ou uma rede de serviços. Tal otimização pode-se dar, por exemplo, através do compartilhamento de processos (fluxos de informações/materiais) e operações (fluxo de informações/equipamentos). Serviços correlatos realizados por diferentes atores podem nesta estratégia reduzir o volume de energia e recursos materiais necessários para obter (ou mesmo ampliar) a satisfação do usuário.

A otimização da vida útil de produtos através de serviços pode ser obtida através do maior compartilhamento de produtos (nível 2) ou através de serviços que resultem na extensão de sua vida útil dos produtos (nível 1). Reduz-se, desta forma, a necessidade de exploração dos recursos naturais decorrente da produção de novos bens. No projeto de um dado produto esta otimização pode ser obtida através:

· Serviços de suporte para obter-se maior fexibilidade e adaptabilidade do produto ao longo do ciclo de vida: serviços que resultem em maior flexibilidade funcional do produto, incluindo sua capacidade de se adequar a novas necessidades ao longo do ciclo de vida;

· Serviços de ampliação do ciclo de vida do produto: serviços que permitam estender a vida útil do produto, mantendo a satisfação do usuário sem que haja a necessidade de produção de um novo bem. No exemplo da figura ao lado (disponível na base Eco-Cathedra) a empresa oferece um serviço "carpet" ao invés de vender o carpet. O produto foi desenhado de forma modular, de forma a permitir a fácil manutenção e reposição das partes danificadas, sem que haja a necessidade de substituição de toda uma superfície de carpet.

A necessidade de otimização do ciclo de vida de produtos através de serviços decorre da constatação que é cada vez mais comum adquirimos mais produtos do que efetivamente consumimos. Note-se que este fenômeno já não é um atributo de classes de renda mais alta. Na verdade o barateamento dos custos de produção tem propiciado o acesso das pessoas com renda baixa a produtos de consumo antes impensáveis.

Uma métrica da baixa intensidade de uso dos bens materiais é facilmente observada, particularmente no meio urbano, com o tempo ocioso destes bens em relação à sua expectativa de vida útil. Por exemplo, não é difícil encontrar uma bicicleta, que teria ao redor de 20 anos de ciclo de vida (175200 horas), sendo utilizada por um dado usuário apenas duas ou três horas ao mês. Mantendo-se o mesmo ritmo de uso a bicicleta seria utilizada apenas 720 horas ao longo de todo seu ciclo de vida, ou seja, 0,4% de sua vida útil. Ao mesmo tempo a necessidade por mobilidade através da bicicleta muito provavelmente ocorre junto a outras pessoas na mesma região deste mesmo usuário, implicando na aquisição novas bicicletas. Esta situação é inconsistente com o grave problema ambiental que vivemos.

Outro problema associado à otimização do ciclo de vida de produtos e onde os serviços podem fazer uma contribuição efetiva é o descarte prematuro de produtos, incluindo aquele decorrente da obsolescência estética. A obsolescência prematura de produtos é um fenômeno recente na história humana e isto paradoxalmente ocorre em um período onde os produtos têm alcançado níveis de durabilidade e confiabilidade sem precedentes. Os fatores que explicam este fenômeno são diversos mas é possível apontar o barateamento dos custos diretos de produção; as mudanças culturais e demográficas de nossa sociedade que tem levado à utilização do consumo como estratégia de redução de stress; a maior intensidade de estímulos ao consumo em decorrência dos meios de comunicação em massa; a emergência de novas aspirações do indivíduo em decorrência do aumento dos níveis de educação da sociedade, etc. Assim, serviços podem contribuir para reduzir a obsolescência estética e tecnológica de produtos.

O maior impacto na otimização do uso dos bens materiais ou do provimento de serviços ocorre quando a atuação do designer se dá já na concepção do sistema de uso e produção. Contudo, mesmo a atuação restrita ao design de produtos já oferece um grande potencial de contribuição do designer para a causa ambiental. Apresenta-se a seguir critérios gerais para a concepção de serviços orientados à otimização do ciclo de vida de produtos:

Quadro 1 – Critérios para a Avaliação de Serviços sob Ótica da Otimização do Ciclo de Vida

QUESTÃO

SIM

NÃO

NÃO SE APLICA

O serviços contribuir para a atualização e a adaptabilidade dos produtos?

O serviços contribui para a manutenção do produto ou suas partes?

O serviço contribui para a reparação e a reutilização do produto ou suas partes?

O serviço contribui para a remodelação do produto?

O serviço contribui para a intensificação do uso?

A vida útil dos componentes correspondente à duração prevista para o serviço de substituição?

Foi realizado a escolha de materiais duráveis considerando seu uso e a vida útil do produto?

Os produtos evitam materiais permanentes para funções temporárias?

Os produtos associados aos serviços minimizam o número de partes e componentes?

Os produtos tem baixa complexidade para atuação dos serviços?

Os produtos associados ao serviço evita junções frágeis?

O serviço pode ser feito de forma remota?

O serviço é modular e permite adaptação em relação à evolução física e cultural dos usuários?

O serviço de atualização pode ser realizado no próprio lugar de uso do produto?

O produto têm instrumentos e referências para facilitar os serviços de atualização e adaptação?

Para muitos a busca pela otimização do ciclo de vida de um produto ou serviço pode ser entendida como contrária à própria profissão do Designer. O argumento neste paradigma tradicional é que o menor volume de consumo levaria a uma menor demanda por profissionais da área. Acontece que, como reconhece o próprio ICSID, o design neste novo paradigma direciona sua criatividade para o estabelecimento de novas relações entre atores, para a criação de soluções inovadoras que viabilizem o compartilhamento de produtos, para o design de serviços mais eco-eficientes, entre outras. Estas novas competências demandam algo que é central à atividade do Design: criatividade.

O desafio para o design é, portanto, desenvolver produtos, serviços ou sistemas inteiros que possibilitem a satisfação das pessoas sem que isto implique em aumento da taxa de utilização dos recursos naturais que observamos atualmente. Seguindo o princípio desta seção, uma das estratégias para sua implementação são as soluções que estimulam e viabilizam as pessoas os compartilharem dos recursos. Portanto, tendo em vista o caráter individualista que se desenvolveu em nossa sociedade fica claro que este não é um desafio fácil. A otimização da vida de produtos e serviços necessariamente tem que resultar na percepção de melhoria da qualidade de vida das pessoas em relação às soluções anteriores.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aula 07 - níveis de maturidade do DS

Níveis de Maturidade do Design Sustentável

trechos do texto abaixo foram retirados de:

SANTOS, Aguinaldo . Níveis de maturidade do design sustentável na dimensão ambiental. In: Escola de Design - UEMG. (Org.). Caderno de Estudos Avançados em Design. 1 ed. Belo Horizonte: Santa Clara, 2009, v. 3, p. -





A figura a seguir representa os níveis de sustentabilidade associados ao consumo e produção sustentável. No extremo inferior, a atuação paliativa nos fluxos de processos e operações (SANTOS, 1999) e no outro extremo, mudanças na direção de um consumo “suficiente” (ALCOTT, 2008), com drásticas reduções no consumo de recursos naturais.




Nível 1: melhoria ambiental dos fluxos de produção e consumo

Neste nível, os esforços são orientados para a melhoria do desempenho ambiental dos fluxos de processos (materiais e/ou informação) e de operações (pessoas e/ou máquinas), com ênfase na seleção adequada de materiais e energia. Isto é obtido sem intervenção nas características dos produtos ou serviços, sendo as ações orientadas ao redesenho dos processos e operações, não ao longo de toda a cadeia produtiva, mas ao longo de todo o ciclo de vida do produto de forma a torná-los mais eficientes no uso de recursos, prevenindo poluição e geração de desperdícios. Incluindo-se aí as ações nos fluxos orientados à reciclagem e ao re-uso de produtos. Isto inclui os fluxos durante a fase de uso, os quais podem também contribuir para viabilizar a elevação do desempenho ambiental dos processos.

Nível 2: redesign ambiental do serviço/produto

Esta estratégia significa a mera readequação ambiental de um produto existente. Esta perspectiva tem sido a dominante no Brasil e até mesmo confundida como o significado maior do design sustentável. Caracteriza-se principalmente pela substituição de materiais não-renováveis por materiais renováveis, podendo incluir melhorias no produto ou serviço de maneira a resultar na maior eficiência do consumo de matéria-prima e energia ao longo de toda a cadeia produtiva e de todo o ciclo de vida do produto/serviço, incluindo a facilitação da reciclagem e o reuso de componentes. Não há a exigência de mudanças reais nos estilos de vida e consumo, mas apenas a sensibilização do usuário para a escolha de produtos ou serviços ambientalmente responsáveis (VEZZOLI, 2007).

Nível 3: projeto de sistemas produto + serviço

Este nível busca desmaterializar todo ou parte do consumo, mediante a satisfação do usuário via serviços associados ao produto. O projeto de novas soluções para o produto-serviço que substitua as atuais soluções centradas no bem físico e não no resultado final, implica uma reestruturação técnico-produtiva de forma a atender uma determinada unidade de satisfação. Isto pode gerar ganhos sócio-ambientais mais significativos do que as estratégias apresentadas anteriormente. Segundo Vezzoli (2007), esta unidade de satisfação é a representação subjetiva da demanda a ser atendida, permitindo a identificação das relações pessoais ou empresariais que precisam existir para satisfazê-la.

Nível 4: projeto de novo serviço intrinsecamente mais sustentável

Este nível procura estabelecer soluções, ainda na fase de projeto, para melhorar o desempenho do serviço em todas as etapas do ciclo de vida, partindo do próprio conceito do serviço. Neste nível, há maior complexidade na atuação do designer, dado que a ênfase não é meramente redesenhar o sistema existente, mas desenvolver soluções, que já na sua origem, evitem ou eliminem os problemas que o redesign ambiental apenas mitiga. Um serviço intrinsecamente mais sustentável na dimensão ambiental, por exemplo, deve contribuir de forma direta para a minimização de recursos, escolha de recursos de baixo impacto, extensão da vida dos materiais, otimização da vida dos materiais e facilidade de desmontagem (TUKKER et al., 2006).

Nível 5: implementação de novos cenários de consumo “suficiente”

As ações neste nível são orientadas à esfera sócio-cultural, promovendo novos critérios qualitativos associados à percepção de satisfação e felicidade pelo ser humano de forma a resultar em consumo “suficiente” (ALCOTT, 2008) em contraposição ao consumo “eficiente”. No consumo eficiente (níveis 1, 2, 3 e 4) o comportamento do consumidor é orientado pela busca de um dado nível de satisfação, mas com menor volume de recursos (exemplo: aquecer exatamente a quantidade de água para se fazer uma xícara de café; desligar luzes desnecessárias; compartilhamento de carro).

Embora o consumo eficiente já ofereça oportunidades de redução do impacto ambiental, as pessoas podem ainda estar consumindo muito além de suas necessidades reais. Já o consumo “suficiente” significa a revisão dos atributos de satisfação, estilo de vida e hábitos de consumo, buscando aproximar o consumo das necessidades reais de cada indivíduo e dos limites de resiliência do planeta terra (exemplo: não tomar aquele copo de café; utilizar mais a luz natural; não utilizar o carro).

Claramente a busca pelo consumo suficiente não deverá ocorrer sem que haja mudanças profundas na dinâmica complexa das estruturas de nossa sociedade. Tais mudanças não ocorrem pela simples introdução de uma solução tecnológica ou gerencial e sim pela indução, desenvolvimento e implementação de cenários de vida economicamente viáveis, socialmente aceitáveis e culturalmente atrativos (VEZZOLI; MANZINI, 2008). As inovações neste nível são, portanto, mais radicais. Sua complexidade demanda maior articulação com todos os stakeholders para que as soluções sejam duradouras.

Talvez o desafio maior para a implementação de um design verdadeiramente sustentável, particularmente as ações do nível 5, é a percepção na maioria das pessoas de que aumento na qualidade de vida implica necessariamente em aumento da renda e aumento no uso de recursos naturais e tecnologia. Esta é uma visão individualista e comprovadamente equivocada, na medida em que bens materiais, tão somente, são insuficientes para efetivamente conferir felicidade às pessoas. A não consideração de aspectos chave ao desenvolvimento sustentável, como a equidade social e ambiental, por exemplo, tem revertido em detrimento da própria satisfação e felicidade das pessoas que têm elevado consumo. A violência e a poluição nas grandes cidades são exemplos de decorrências das deficiências na equidade social e ambiental de nossa sociedade, afetando indiscriminadamente todos os indivíduos, não importa o extrato sócio-econômico a que pertençam.

Como colocado nas seções anteriores, o design e a sustentabilidade trazem desafios que colocam em cheque o próprio entendimento do que vem a ser o escopo de atuação da profissão e isto fica ainda mais evidente quando se trata da busca pelo consumo suficiente. Por exemplo, um grande desafio no campo do design de embalagens é que a própria necessidade da embalagem é um dos primeiros questionamentos a serem realizados num processo criativo. Quando não é possível a eliminação da embalagem, o design sustentável oferece uma série de ferramentas e princípios que possibilitam a eliminação ou minimização de seu impacto ambiental.

Este último nível trata, portanto, de soluções que efetivamente mudam estilos de vida e, dessa forma, hábitos de consumo e produção de maneira a reduzir ou eliminar o impacto do ser humano sobre o meio ambiente. Por sua vez, a proposição e implementação de novos cenários sustentáveis para o consumo e produção implicam na promoção de novos valores culturais radicalmente diferentes do paradigma corrente. Neste caso, o papel do designer pode ser desde líder até o de mero suporte técnico, optando pela exata participação no processo de mudança, dependente do perfil de cada um, seja como profissional ou como cidadão.


domingo, 24 de abril de 2011

Aula 07 - estratégias para um serviço sustentável

O design de serviços tem um grande potencial de contribuição para a migração de nossos padrões de consumo e produção para níveis mais sustentáveis. Na recente versão da base de dados Eco-cathedra, disponível para download na área de "tools" do portal www.lens.polimi.it) encontra-se vários exemplos práticos desta contribuição potencial dos serviços para a sustentabilidade. Dentre as principais estratégias para se efetivar esta contribuição destaca-se:

a) Serviços que substituem produtos: aqui o foco é o provimento de resultados finais às
demandas do cliente, implicando em grau elevado de desmaterialização dos processos de consumo e produção. Esta desmaterialização pode ser parcial ou total.

O Kindle da Amazon é um exemplo de serviço que substitui o consumo de livros e documentos impressos, o que pode resultar em um balanço ambiental positivo mesmo levando em conta que o próprio Kindle tem seu inegável impacto ambiental.

Um forma de implementar esta abordagem é o compartilhamento de produtos com outros consumidores através de serviços realizados em associação com a comunidade no entorno do usuário ou através da contratação associada de prestador de serviço (ex: serviços condominiais para lavagem da roupa existentes em flat hotéis; serviço coletivos de coleta e tratamento de orgânicos em contraposição à aquisição da composteira individual).

O exemplo da figura ao lado, extraído da base de dados Eco-cathedra, apresenta o caso da empresa Mewa onde o cliente não compra roupas ou uniformes para seu staff mas sim o serviço "proteção". A empresa realiza a gestão total do ciclo de vida das roupas após o uso, incluindo sua manutenção, re-uso e reciclagem.



b) Serviços que tornam produtos mais sustentáveis: a efetiva gestão do ciclo de vida de produtos, incluindo sua eficientização (melhoria da relação input/output nos insumos necessários para operar um produto), upgrade, intervenções para re-uso, reciclagem e compostagem/combustão, etc. Um exemplo deste serviço é o que o LACTEC provê para prefeituras no que tange a eficientização da iluminação pública (http://sistemas.lactec.org.br/HotSites/lactec_informa02/arquivos/lactec_informa_final_09ago05.pdf..

No caso de soluções voltados ao ambiente construído um exemplo nesta linha é o da Kyocera que tem em seu portfólio produtos que podem receber serviços de upgrade ao longo do ciclo de vida. A figura ao lado representa outro exemplo extraído da base de dados Eco-cathedra. O exemplo trata da empresa Lampi di Stampa, que produz livros sobre demanda, resultando em uma série de benefícios ambientais na fase de pré-produção, produção e distribuição de impressos.

c) Serviços que induzem estilos de vida mais sustentáveis: a alteração das escolhas realizadas pelos consumidores é um processo complexo que envolve desde educação em larga escala até a realização de pesquisa básica de elevada complexidade. As contribuições mais profundas para a sustentabilidade muitas vezes implicam em redução do bem estar e, desta forma, implicam na definição de estilos de vida e da redefinição de significados (e.g.: entender como “luxo” cozinhar ingredientes locais e frescos ao invés do optar pelo fast food de congelados). A oferta de serviços pode contribuir para atrair as pessoas para novas formas de viver de forma direta (ex: serviços de bike sharing que atraem pessoas que utilizam carros; redução da necessidade de recursos para mobilidade através do provimento do serviço “home-office”) ou indireta (e.g.: serviço de provimento de receitas e compras coletivas de base local, utilizando critérios ambientais e sociais).

Na base de dados Eco-cathedra há vários exemplos de serviços que contribuem para induzir estilos de vida mais sustentáveis. Um destes exemplos é o da empresa Visana que na Polônia tem provido serviços integrados para tornar mais competitivo os produtores orgânicos. Através do serviço desta empresa tem ocorrido uma mudança no hábito alimentar dos clientes finais através da valorização da produção local, fundamentada em práticas de comércio justo e produção livre de agrotóxicos.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Aula 05 - SDO

SDO – Sustainable Design Orienting Toolkit

Esta é uma ferramenta de apoio ao processo de geração de idéias para sistemas produto+serviço, com base em princípios do design para a sustentabilidade. O conteúdo desta ferramenta foi o resultado de um projeto europeu, sob a coordenação do Politécnico de Milão. A ferramenta está disponível em http://www.mepss-sdo.polimi.it/mepss/website/mepss.html, sendo que uma versão anterior em português está disponível no site do NDS (www.design.ufpr.br/nds).

O “Sustainability Design Orienting Toolkit” (SDO) integra um roteiro de análise com Check-lists que orientam o Designer na análise das prioridades ambientais, sociais e/ou econômicas.

Conforme podemos verificar na figura são estabelecidos graus de prioridades para cada uma das dimensões de sustentabilidade ambiental analisadas. A definição de prioridades é apoiada

por check-lists para cada princípio da sustentabilidade. A análise é fortemente qualitativa e a qualidade do resultado final vai depender da robustez dos dados utilizados no processo de análise.

A ferramenta também é útil para o processo de geração de idéias. Janelas com espaços emulando “post-its” permitem a geração continuada de idéias, inclusive com stakeholders participando a distância.




Com a análise completa de todos as dimensões consideradas é gerado um gráfico do tipo radar onde se apresenta de forma sintética o conceito do novo sistema e seu vínculo com as prioridades de cada dimensão da sustentabilidade.



Exemplo de Aplicação

(Extrato da dissertação de Giacomini (2009) orientada pelo Prof. Dr. Aguinaldo dos Santos)

Os resultados ambientais apresentados pelo sistema se localizaram principalmente na categoria “média prioridade”. Embora o sistema não tenha sido projetado para a redução do impacto ambiental, algumas ações (como por exemplo: a aquisição de móveis usados, a extensão da vida do mobiliário e dos equipamentos eletrônicos por meio de consertos e manutenção, etc) corroboram para esses resultados.

A diretoria da empresa não observou interesse dos usuários na ampliação da sustentabilidade do sistema e até o presente momento não recebeu nenhuma solicitação ou questionamento sobre as ações desenvolvidas nesse âmbito, portanto a atuação da empresa nessa área advém do interesse pessoal da diretoria. No entanto, estratégias ambientais não se encontram inseridas na política da empresa de forma sistemática, visto que as ações desenvolvidas focam o âmbito operacional.

Sob a ótica da sustentabilidade ambiental, esse modelo de negócio possui diversas características de um sistema produto-serviço e algumas de suas propriedades (como por exemplo: a utilização compartilhada) promovem a otimização da vida dos produtos e, portanto contribuem para a ampliação do índice de sustentabilidade do sistema. A empresa também efetua a separação do lixo reciclável e baterias, incentiva a economia de água e energia, no entanto ainda não possui uma estratégia de gestão ambiental.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Aula 05 - Diagrama de Polaridade


Diagrama de Polaridade


Esta ferramenta tem o objetivo de identificar visualmente as principais particularidades do sistema e estabelecer o nível de prioridade em que estas se encontram. As informações inseridas nas extremidades do diagrama podem variar de acordo com as prioridades do caso analisado.

A partir de análise, entrevista e observação do sistema atual é possível estabelecer visualmente os índices de importância para as categorias do sistema em questão.


Na horizontal trata-se do nível de envolvimento de stakeholders no provimento de uma data unidade de satisfação. Neste exemplo, no extremo esquerdo do eixo horizontal a empresa opta por realizar integralmente todo o provimento dos produtos e serviços do sistema (e.g.: empresa fabrica todos os produtos e insumos para lavar roupas e provê com seu próprio staff todos os serviços requeridos pelo sistema). No extremo direito a empresa opta por envolver outros stakeholders (e.g.: empresa decide fabricar somente a plataforma da máquina de lavar roupa, envolvendo outras empresas na fabricação dos outros componentes e insumos necessários, incluindo os serviços requeridos pelo sistema). A opção por um ou outro extremo depende de questões como nível de investimento requerido; os riscos envolvidos; as implicações na imagem da empresa; a capacidade operacional da empresa, etc.


Na vertical a escolha se dá quanto ao nível de envolvimento do usuário no provimento de sua satisfação. Em um extremo temos o full service onde ocorre o nível mais elevado de desmaterialização. O usuário não tem a propriedade dos produtos, insumos ou equipamentos eventualmente utilizados no provimento de sua satisfação, estando a gestão do ciclo de vida dos mesmos sob a responsabilidade do próprio fabricante. O foco é inteiramente no resultado (e.g.: usuário deixa na recepção do edifício sua cesta de roupa suja e recebe ao final do dia sua roupa lavada em sua porta). Em um patamar intermediário da coluna vertical o sistema é orientado ao uso. A gestão dos artefatos que resultam na satisfação do usuário é ainda realizada por terceiro mas neste nível há envolvimento direto do usuário na operação do sistema (e.g.: empresa provê a máquina de lavar roupa "per-per-use" onde o usuário paga conforme o número de horas de efetiva utilização do equipamento). Finalmente, no outro extremo da coluna vertical estão as "plataformas" onde é provido ao usuário um conjunto de artefatos (físicos ou digitais) que possibilitam o usuário alcançar a satisfação pretendida. Em uma plataforma o envolvimento do usuário pode-se dar desde a própria fabricação de componentes até tarefas de manutenção, upgrade, reciclagem ou descarte. O "serviço" é dependente integralmente do usuário (e.g.: empresa provê uma máquina de lavar modular, possibilitando customização por parte do usuário, sendo que a mesma vem acompanhada de um kit de manutenção que o próprio usuário pode utilizar).


Exemplo de aplicação:


Esta aplicação trata de um estudo piloto realizado pelo Núcleo de Design & Sustentabilidade em parceria com a Whirlpool (Brastemp/Consul). A unidade de satisfação do projeto era "cozinhar de forma sustentável". Utilizou-se o diagrama de polaridade no processo de geração de idéias. O diagrama a seguir foi o resultado deste processo.



Note-se que, quando o projeto tem uma empresa como cliente, a decisão sobre qual quadrante é o mais apropriado no processo de criação vai depender de uma análise estratégica anterior. Em projetos realizados no Núcleo de Design & Sustentabilidade tem se observado situações onde a equipe da empresa almeja um dado quadrante mas entende que no curto/médio prazo este anseio não é viável. Limitações na cultura organizacional, limitações financeiras ou mesmo restrições tecnológicas, são exemplos de fatore que podem afetar este posicionamento.


No caso deste projeto piloto, uma vez realizado a geração de idéias para o sistema produto+serviço e decidido o quadrante mais adequado para o contexto da empresa, efetuou-se então a análise de potenciais sinergias entre as idéias (clusterização).


A opção foi pelas soluções com maior envolvimento de stakeholders externos à empresa e aquelas orientadas ao provimento de "plataformas". Algumas das idéias geradas neste processo poderiam estar em mais de um quadrante. Outras idéias apresentavam uma óbvia possibilidade de integração conceitual.


Observou-se que as idéias giravam em torno de dos conceitos principais: a cozinha que fomenta o

relacionamento do usuário com outras pessoas via a mídia eletrônica ("e-community"), possibilitando a indução de estilos de vida mais sustentáveis. O outro cluster de idéias teve como eixo central a "modularidade", permitindo maior nível de customização do produto e, muito importante, instrumentalizando a melhor gestão do ciclo de vida.



terça-feira, 29 de março de 2011

Aula 04 - A Inserção do DS no modelo genérico do PDP

postagem com trechos extraídos da dissertação:

Prado, Gheysa. Protocolo para Definição das Prioridades Sociais no Processo de Desenvolvimento de Produtos. Programa de Pós-Graduação em Design da UFPR, 2010. (orientador: Professor Dr. Aguinaldo dos Santos)


O PDP proposto por Rozenfeld et. al. (2006) é composto, basicamente, por três grandes etapas, o Pré-Desenvolvimento, o Desenvolvimento e o Pós-Desenvolvimento (figura a seguir). Esse modelo, segundo os autores, pode ser adaptado de acordo com a abordagem mais específica a ser utilizada em um dado projeto ou organização.


Etapas básicas do modelo de referência do PDP (FONTE: ROZENFELD et. al., 2006)

Iniciando-se pelo pré-desenvolvimento, há as etapas de planejamento estratégico do produto e o planejamento do projeto a ser executado (figura a seguir). O planejamento estratégico do produto, realizado na fase de pré-desenvolvimento, tem, segundo Rozenfeld et. al. (2006), a revisão do planejamento estratégico de negócios, a análise e proposição de mudanças do atual portfólio da empresa. A definição dos produtos a serem desenvolvidos e a definição acerca das características iniciais destes, como segmento de mercado, recursos necessários, tendências tecnológicas etc. também fazem parte desta etapa. O planejamento do projeto, em si, é a determinação do escopo do projeto e do produto, orçamentos, prazos, definição do pessoal, recursos, procedimentos de avaliação, análises de risco e indicadores de desempenho do projeto e do produto (ROZENFELD et. al., 2006).

Pré-desenvolvimento e suas etapas (FONTE: ROZENFELD et. al., 2006)

Note-se que aqui reside uma diferença fundamental para a abordagem do Design de Serviço, centrada no usuário. No PDP de Rozenfeld é o planejamento estratégico da empresa é a etapa inicial, o que implica na definição de um escopo a priore do mercado e o portfólio de serviços e produtos a serem oferecidos. Enquanto isto, no Design de Serviços, o foco é a satisfação do usuário e isto pode resultar inclusive na necessidade de se implementar uma nova organização. Em uma abordagem centrada no usuário não seria incomum encontrar soluções que não são necessariamente alinhadas com um plano estratégico previamente determinado.

A segunda grande etapa do modelo de referência de Rozenfeld é o "desenvolvimento" propriamente dito. Esta fase é a mais complexa a extensa sendo composta, ao total, por cinco etapas. São elas: os projetos informacional, conceitual e detalhado, a preparação da produção e lançamento do produto (vide figura a seguir).


Etapas do desenvolvimento (FONTE: ROZENFELD et. al., 2006)

O projeto informacional tem como objetivos, detalhar o ciclo de vida dos produtos, definir os requisitos de acordo com desempenho, relação com o meio ambiente, vida em serviço, eficiência, transporte, embalagem, quantidade, infra-estrutura, tamanho e peso, estética, aparência e acabamento, materiais, normas, ergonomia, armazenamento e vida de prateleira, testes, segurança, política do produto, implicações sociais e políticas, responsabilidade do produto, operação e instalações, reutilização, reciclagem e descarte. A definição das especificações meta do produto (parâmetros quantitativos dos requisitos) também faz parte do projeto informacional (ROZENFELD et. al., 2006). Esta esta etapa corresponderia à etapa de "descoberta" dos modelos de Design de Serviços. Há aqui também uma diferença na filosofia de captura destas informações: enquanto no processo ortodoxo do PDP há uma ênfase na observação para captura dos requisitos no processo de Design de Serviço há uma imersão do Designer na experiência do usuário. Esta imersão pode implicar inclusive no Designer exercer o papel de cliente afim de efetivamente entender a dinâmica da experiência.

O projeto conceitual tem a finalidade de modelar o funcionamento do produto (requisitos funcionais e lista de funções), definir princípios de soluções para as funções e desenvolver alternativas de soluções para o próprio produto (bem conhecida no meio do design como fase de geração de alternativas (LÖBACH, 2001)). A análise de sistemas e subsistemas e componentes para a definição de parâmetros, definição da ergonomia e da forma, dos fornecedores e parcerias para co-desenvolvimento, a seleção de alternativa o planejamento do processo de manufatura macro são igualmente fases integrantes do projeto conceitual (ROZENFELD et. al., 2006). Esta etapa também é realizada no Design de Serviço, porém com ferramentas diferentes. Como o serviço é intangível, o foco são nas ferramentas de visualização do processo de realização do serviço e suas características (ex: storyboards, animações).

O projeto detalhado é a etapa na qual as principais definições do produto são concluídas. Nesta são feitas o detalhamento do sistema, subsistemas e componentes e é decidido quanto a produção ou compra destes, bem como suas avaliações (desenvolvimento de modelos e execução de testes), o planejamento dos processos de fabricação e montagem, projeto dos recursos de fabricação (ferramentas, máquinas, equipamentos e instalações necessárias). A otimização de produto e processo (desenhos detalhados com cotas), a criação de material de suporte do produto (manuais de operação e descontinuidade) e sua embalagem (incluindo transporte), o planejamento do fim da vida, testes e homologação do produto também compõe a etapa do projeto detalhado (ROZENFELD et. al., 2006). No Design de serviço esta etapa pode envolver inclusive a realização de validações e testes piloto em ambientes controlados ("mock-up do serviço").

A etapa de preparação da produção no PDP tem como objetivos principais, obter os recursos de fabricação, planejar a produção piloto, receber e instalar os recursos, produzir o lote piloto, homologar o processo, otimizar a produção e certificar o produto. O desenvolvimento do processo de produção e o de manutenção também estão inseridos nesta etapa. No Design de Serviços esta etapa inclui o desenvolvimento de manuais para treinamento e outros elementos necessários para a garantia da robustez do serviço. Isto é particularmente relevante quando há interesse em replicar o serviço em outros locais ou quando há rotatividade do pessoal envolvido no provimento do serviço.

O lançamento do produto é a última fase do desenvolvimento e é a etapa responsável, basicamente, pela definição dos 3 P’s de marketing ainda não definidos, a Promoção, a Praça e o Preço (LAS CASAS, 2005), já que o P de Produto é a essência do PDP. São, portanto, objetivos desta etapa, o desenvolvimento dos processos de venda, distribuição, atendimento ao cliente e assistência técnica, bem como promover o marketing de lançamento, lançar, de fato, o produto fazendo o gerenciamento desta fase. A atualização do plano de fim de vida também faz parte desta etapa (ROZENFELD et. al., 2006). Assim como produtos, o design de serviço também envolve estas atividades, incluindo as ações orientadas à sua descontinuidade. A interrupção de um serviço necessita de planejamento. Em alguns setores esta etapa é inclusive imposto pela legislação de proteção ao consumidor (ex: descontinuidade de serviços na web).






A terceira e última grande etapa do modelo de referência do PDP e que o encerra no âmbito do produto desenvolvido, é a etapa de pós-desenvolvimento. Esta etapa é composta pelas fases de acompanhamento do produto e processo e pela descontinuação do produto (FIGURA 6).
Etapas do pós-desenvolvimento (FONTE: ROZENFELD et. al., 2006)

A fase de acompanhamento de produto e processo tem os seguintes objetivos: avaliar a satisfação do cliente, monitorar o desempenho do produto (técnico, econômico, ambiental, de produção e de serviços), realizar auditoria pós-projeto. Já a fase de descontinuação do produto analisa e a prova a descontinuidade do mesmo, prepara a empresa para o recebimento deste produto, acompanha este recebimento, encerra a produção, finaliza o suporte ao produto e faz a avaliação geral e encerramento do projeto (ROZENFELD et. al., 2006).